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31.05.2019

Pulverização como aliada às altas produtividades

A agricultura brasileira desponta perante demais países em virtude da velocidade com que as práticas agrícolas evoluem. Concomitantemente, evoluem em igual proporção os desafios enfrentados pelo trabalhador do campo. Dentre as operações necessárias, as pulverizações são demandadas em maior número no ciclo produtivo da lavoura e são decisivas na manutenção de seu potencial produtivo. Junto das pulverizações surgem alguns desafios como promover boa cobertura por gotas, sem haver excesso de deriva, proceder de forma correta no preparo das caldas contendo água com um ou mais produtos e associar qualidade na aplicação e no preparo de calda, com rendimento operacional.
A primeira decisão e, talvez, a mais importante de uma pulverização é saber qual ponta e tamanho de gota será necessário para que o produto se deposite no alvo com qualidade, pensando no máximo em cobertura por gotas e o mínimo em termos de deriva.
As misturas de tanque estão cada vez mais frequentes e deve-se entender que, sempre que houver a presença de fungicidas em calda, o uso de gotas finas (106-235 micra) será necessário. Para inseticidas e herbicidas de contato, podemos trabalhar com gotas maiores, para minimizar a deriva, como gotas médias (236-340 micra), enquanto herbicidas sistêmicos usados em pré ou pós-emergência de plantas daninhas poderão ser aplicados com as maiores gotas oferecidas pelos fabricantes de pontas.
Das gotas de menor para as de maior tamanho do mercado, têm-se os modelos de jato cônico vazio, leque duplo, leque simples, cônico cheio, leque defletor, leque com pré-orifício, leque com indução de ar, leque duplo com indução de ar e leque defletor com indução de ar. Escolher dentre estes modelos de ponta é a forma mais inteligente de manejar o tamanho de gota desejado.
Além do tamanho da gota é importante também entender que cada bico produz gotas com diferentes velocidades. Uma ponta de jato leque simples tem gotas mais velozes que pontas de jato cônico, o que faz com que as gotas cheguem mais rápido até o alvo, diminuindo as chances de evaporação ou deriva por vento. Outro fato importante é que em modalidades de aplicação com volumes muito reduzidos, uma parcela significativa da calda é aplicada na forma de gotas muito finas (60-105 micra) e mais lentas, que podem ser perdidas mais facilmente por deriva.
É muito comum encontrarmos aplicações no dia a dia em que o pulverizador é regulado para aplicar gotas finas ou médias, mas que, por necessidade de variar a velocidade de aplicação, tem o tamanho de suas gotas modificado devido a variações muito altas na pressão inicial de trabalho. Estas variações podem gerar gotas desuniformes ou muito propícias à deriva. É, portanto, imprescindível que existam tecnologias para ajustar a vazão do bico de forma menos dependente da pressão.
A forma mais usual de avaliar a cobertura por gotas é por meio do uso de papéis hidrossensíveis colocados em locais representativos na lavoura, como os terços superior, médio e inferior. Usando-se de gotas finas, temos uma redução natural de 3 e 8 vezes na cobertura das gotas do terço superior para o médio e do terço superior para o inferior, respectivamente, enquanto para gotas grossas, esta redução na cobertura seria de 5 e 12 vezes. Dessa forma, o uso de gotas finas é importante para garantir que maior quantidade de gotas atinja as partes baixas das plantas, como exigido no caso do uso de fungicidas.
O bom preparo da calda esbarra no principal desafio atual das pulverizações: a alta concentração das caldas. Na cultura da soja, por exemplo, se lembrarmos de como era o manejo de doenças há 20 anos, contemplaríamos o uso de doses baixas de um produto, algo em torno de 150 g de ingredientes ativos, o que era suficiente para um bom controle. No entanto, com o passar dos anos, houve o surgimento da ferrugem e a manifestação de resistência de doenças aos principais produtos, o que exigiu misturas e doses maiores de fungicidas, bem como a associação de fungicidas multissítios. Este cenário elevou de 5 a 10 vezes a quantidade de ingredientes ativos usados na mesma área aplicada. Houve também reduções no volume de aplicação da ordem de 3 vezes, em média. Se multiplicarmos um fator pelo outro, a resultante é caldas de 15 a 30 vezes mais concentradas do que duas décadas atrás. Neste cenário, torna-se altamente recomendável o uso de modelos e vazões de pontas que possibilitem trabalhar com filtros de malha maior (de menores valores em mesh – medida usada para o tamanho de abertura de peneira).
No preparo da calda, os produtos a serem adicionados possuem diferenças quanto à solubilidade. Formulações como Grânulo Dispersível (WG), Pó-molhável (WP), Suspensão Concentrada (SC) e Dispersão em Óleo (OD) possuem os ingredientes ativos de menor solubilidade em água e podem ser adicionados primeiro. Na sequência, temos adjuvantes, óleos e formulações oleosas como Concentrado Emulsionável (EC) que, embora não sejam solúveis em água, são solúveis em solventes orgânicos. Por fim, podemos adicionar as formulações solúveis em água como Grânulos Solúveis (SG), Pó Solúvel (SP), Concentrado Solúvel (SL) e fertilizantes foliares. Esta ordem pode ser seguida visando minimizar problemas de homogeneidade de calda, porém não é uma regra absoluta e somente pode ser seguida se houver receituário agronômico elaborado por profissional competente.
Em muitos casos, mesmo seguindo-se uma ordem por solubilidade de produtos, pode haver incompatibilidades na mistura. Para evitar que este fenômeno aconteça dentro do tanque do pulverizador, gerando problemas hidráulicos e obstrução de filtros, recomenda-se a realização do teste da garrafa, simulando as mesmas proporções e ordem de adição dos produtos numa garrafa pet transparente. Se a calda não for compatível, deve-se substituir o produto gerador da incompatibilidade ou aplica-lo separadamente.
Alguns produtores fazem uso de equipamentos pré-misturadores capazes de fazer uma primeira dispersão, emulsão e solubilização dos produtos na mistura. Esta prática está sendo cada vez mais frequente pois proporciona economia de tempo e melhora a fluidez da calda, principalmente quando se usa produtos de formulação WG, WP, SC e OD. O uso de pré-misturadores será cada vez mais importante, já que as empresas tem preferido formular seus produtos na forma mais concentrada possível, como WG e SG, pensando em diminuir o custo no transporte e armazenamento de produtos, já que formulações líquidas são menos concentradas em ingredientes ativos e exigem doses maiores por área. Além disso, o preparo da calda com produtos granulados como WG pode ser até 4 vezes mais rápido, já que não é necessária a agitação prévia de embalagens e a posterior lavagem das mesmas para remover quantidades de produto decantado.
Em consequência dos desafios das misturas e da atual concentração elevada das caldas, o sistema de agitação dos pulverizadores passa a ser ainda mais importante. Qualquer deficiência ou período de tempo sem que haja agitação poderá ser suficiente para que parte dos produtos decantem no tanque. Se houver decantação, a aplicação se inicia com superdosagem, o que pode gerar danos por fitointoxicação, e termina com subdosagem, não havendo controle da praga. Em ambos os momentos, pode haver menor produtividade, seja por fitointoxicação ou por falta de controle.
Além de garantir que não haja super ou subdosagem de produto na lavoura, um bom sistema de agitação garante que em nenhum momento a bomba admita calda contendo volume de produto decantado, o que poderia prejudicar o seu funcionamento, os filtros do pulverizador, intensificando o acúmulo de resíduo nos finais de seção de barra, o que resultaria em uma aplicação ineficiente.
Portanto, para aumentar a eficiência das aplicações, além de observar todos os fatores que envolvem a composição da calda, é necessário o uso de pulverizadores com sistemas que garantam a qualidade da calda a ser aplicada, com sistema recirculante, recentemente lançado nos pulverizadores Imperador da Stara.

Por Sérgio Tadeu Decaro Júnior – Engenheiro agrônomo de Tecnologia de Aplicação – UPL, mestre e doutor em tecnologia de aplicação pela UNESP, Campus Jaboticabal/SP

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